
Nunca deixo de me sentir emocionado com aqueles que se entregam totalmente a alguma coisa. Não me refiro apenas “àquela” entrega em que nos atiramos aos grandes sonhos, aos grandes projectos, às ambições e conquistas de estilos de vida. Não. Falo, neste caso, de momentos; de apenas alguns minutos de puro amor, de pura libertação, daqueles pequenos instantes em que deixamos cair a máscara e nos revelamos, sem medo, sem preconceitos, mesmo correndo o risco de falhar.
Com isto, quero-vos contar uma pequena história.
Com isto, quero-vos contar uma pequena história.
Algures entre os meus catorze/quinze anos de idade, iniciei a minha vida “profissional” como músico. Na altura, juntamente com o meu melhor amigo, formámos o “Duo”. Os pais lá entraram com a “logística”, e nós lá nos pusemos a ensaiar. Começamos por ser aquele estilo de músicos virados, apenas e só, para o instrumental. Querendo com isto dizer que, só tocávamos e não cantávamos. Éramos muito bons nisso, e adoptamos esse estilo durante muito tempo. Aquando da primeira solicitação feita por uma colectividade para lá actuar, surgiu a ideia de «Porque não cantar?» e após uma profunda e inconsciente reflexão, decidimos «Vamos a isto!» Então, lá começamos a abrir as goelas para tentar fazer música com os estranhos sons que de lá advinham. Esta tarefa tornava-se muito difícil, porque era quase insuportável conter a vergonha que tínhamos um do outro, ao ver e ouvir aquelas duas tristes figuras aos “guinchos”. Eu desisti logo. Era muita a pressão. Mas ele, o meu amigo e sócio, persistiu, e atirou-se á fera com determinação, com amor. Era vê-lo aos berros, a desafinar, a “descarrilar”, e eu rindo, mas no fundo roído de inveja por não ter coragem para aquilo que estava mortinho para fazer, por conquistar. Confesso que, mesmo hoje, passados quinze anos, sinto um profundo orgulho, uma enorme admiração por aquele acto… (cerca de 100 pessoas á espera da 1ª musica do “Duo Musical Hélder e Ricardo”. Ele nervoso, até tremia. Antes de começar, ouço-o dizer «Olha…que se lixe, e seja o que Deus quiser!» Entra o solo em piano, logo seguido por… «Morena, ó morenita, cada dia tu estas sempre mais bonita…»














É nesta partilha, nesta troca de quase tudo que temos, de quase tudo o que somos, deste dar e receber de saberes, que vamos construindo sempre um pouco mais de nós. Hoje vejo que, infelizmente, tenho vindo a ser um fraco a “receber”. Sim. Receber. Eram poucas as vezes a que me dispunha a aceitar “aquela mãozinha” de ajuda, “aquela ajuda grátis”, “aquela palavra de conforto”. Nunca fui uma “daquelas” pessoas, dispostas a fazer profundas reflexões acerca de “como teria sido, pela maneira dela?”. Não, não era pelos “se ao menos a tivesse ouvido…”, pelos “podia ter feito diferente…”. Nunca fui adepto do arrependimento, mas sim, pelo reconhecimento da “falha”, do “ meu erro”. Fui sempre um defensor do “No meu erro, encontrarei a resposta certa”. Muitas vezes, é-nos muito difícil pensar “fora da caixa”, ver a “coisa” de outro ângulo, de outra prespectiva, como um espectador da nossa própria peça de teatro, assistindo ao “drama” do momento. Eu sei. Mas, desse lado, do lado de fora, está sempre alguém, com “aquele outro ângulo” perfeitamente nítido, que nós, apenas porque o queremos, não o queremos ver. Muitas vezes, carregamos o peso da decisão como a uma arma nos braços. Assumimos a frente de combate sozinhos, como se fosse uma vingança pessoal. Hoje, vejo a vida de forma diferente. Vejo-a com mais de um par de olhos. Juntos, não encontramos muitas vezes “aquela resposta ideal”, o tiro nem sempre é certeiro… Mas, nesta guerra, ninguém sai vencido pelas más decisões, pelos tiros no escuro, pelas quedas na procura do melhor abrigo…. Apenas chamuscados, pela euforia do combate.


